Breve História do Escotismo Português e da AEP PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

 

 

texto adaptado de Escotismo para Rapazes, AEP, 1ª edição, ISBN 978-989-8235-04-6

 

Para se perceberem os primeiros passos do Escotismo em Portugal justifica-se espreitar como o movimento escotista deu os primeiros passos a nível mundial e como chegou até nós.

 

Como é do conhecimento geral por parte de todos os que conhecem o movimento escotista, tudo começou com o acampamento - experiência realizado por Baden­Powell, com a participação de vinte rapazes de diferentes classes sociais, organizados em quatro patrulhas de cinco elementos. A grande aventura decorreu de 15 de Julho a 9 de Agosto de 1907, na Ilha de Brownsea, no sul de Inglaterra.

 

No Outono desse mesmo ano, Baden-Powell fez uma visita ao centro nacional das Associações Cristãs da Mocidade e reuniu-se com Charles E. Head, secretário nacional da YCMA inglesa (em Portugal ACM). É no seguimento desta reunião que a YMCA organizou conferências e exposições sobre o manual entretanto publicado por Baden-Powell "Scouting for Boys" e, como consequência, começou a expansão do escotismo no Reino Unido. Ainda em 1908 forma-se o primeiro Grupo de escoteiros da África do Sul, na cidade do Cabo e é com surpresa que, no ano de 1909, em férias pela América do Sul, Baden-Powell é recebido por escoteiros na Argentina e no Chile. No Chile, aproveitando a presença de Baden-Powell, os Grupos já existentes formalizam a constituição daquela que seria a primeira associação de escoteiros estrangeira.

 

É à rede mundial da YMCA que se deve a imediata expansão do escotismo a nível mundial e, nos países nórdicos fundaram-se mesmo associações de escoteiros dentro das respectivas delegações da YMCA. Como veremos adiante, em Portugal, a ACM é também responsável pelo surgimento dos primeiros Grupos de escoteiros do Continente.

 

A fundação documentada do primeiro Grupo de escoteiros em território português ocorreu em Macau, em 1911, por iniciativa do então Tenente Álvaro de Meio Machado, governador do território. O seu conhecimento da existência do escotismo e do seu potencial adveio da proximidade de Hong-Kong, onde já havia também Grupos de escoteiros. É o próprio governador de Macau quem afirma, "Como eu era governador de Macau, protegia muito os rapazes. Pessoa que ali caía eu dizia-lhe logo: você tem de me ajudar nos escoteiros! Arranjei-lhes material e barracas e outras coisas". Com a colaboração da filha do comissário da alfândega chinesa, foram constituídas duas patrulhas de escoteiras e duas de escoteiros, surgindo assim o primeiro Grupo de Escoteiros portugueses, devidamente uniformizados e organizados.

 

Regressado a Lisboa em 1912, Álvaro de Meio Machado empenha-se na formação de um Grupo de escoteiros na capital, o qual viria a ser o 2º Grupo da AEP pois entretanto na ACM surgira também um Grupo de escoteiros, o qual viria a ser o 1º Grupo da AEP.

 

Entretanto é dada uma grande divulgação aos "scouts" pelo jornal "O Século" que, desde 9 de Agosto de 1912, começou a publicar regularmente artigos sobre "scouting", dando a conhecer o seu método e objectivos e apelando ainda à constituição de Grupos de escoteiros em liceus e escolas. Não há certezas mas será provavelmente neste contexto que surge um Grupo de escoteiros no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa. O pintor Carlos Botelho foi um dos seus fundadores e afirma que o Grupo era "muito eclético, curioso, de expressões diferentes no que respeita a ideias, atitudes e até no pensamento religioso, pois tínhamos ali rapazes católicos, protestantes, neutros (entre os quais eu me situava) e tínhamos até um israelita... e todos se davam às mil maravilhas". Este Grupo é referido em artigo publicado em 7 de Setembro de 1912 no já mencionado jornal "O Século".

 

Frank Giles, fundador do Grupo da ACM dizia manter contactos com Grupos do Porto e de Coimbra. Há também relatos da existência de um Grupo em Olhão que teria sido formado por Amâncio Salgueiro Júnior. É possível que tenham existido outros Grupos neste período (1912) mas não há registos fidedignos das suas actividades.

O Tenente Álvaro de Meio Machado, o Doutor Sá de Oliveira, Reitor do Liceu Pedro Nunes, e Roberto Moreton, Presidente da ACM, responsáveis pelos três primeiros Grupos de Lisboa, decidem juntar esforços e constituir-se em associação e, em 6 de Setembro de 1913, é formalmente constituída a Associação dos Escoteiros de Portugal (AEP), a associação que fundou o escotismo português.

 

A partir de então muitos outros Grupos se filiaram na AEP: o Grupo 4 de Torres Vedras, Grupo 5 da Escola Normal, ao Calvário (Lisboa), o Grupo 6 que derivou do Grupo 2, o Grupo 7 da União Cristã de Jovens (Lisboa), o Grupo 8 de Faro, o Grupo 9 da Rua da Madalena (Lisboa), o Grupo 10 no Palácio do Governador (Lourenço Marques). No Norte do país funda-se o Grupo 18 no Colégio dos Órfãos de S. Caetano, em Braga, o Grupo 26 na Rua de Sá da Bandeira, no Porto.O primeiro Grupo feminino foi fundado em 1916 e recebeu o número 28.

 

Viviam-se então os tempos da Primeira República e os actos heróicos dos Escoteiros de Portugal eram profusamente relatados nos jornais da época. Destacam-se a revolução de 14 de Maio de 1915, com os Escoteiros a prestarem apoio aos muitos feridos, o incêndio do Arsenal da Marinha, em 18 de Abril de 1916, durante o qual os Escoteiros de Portugal ajudaram a salvar grande parte do valioso espólio da instituição, o que foi muito elogiado. O Diário de Notícias escrevia a propósito "os simpáticos Escoteiros, sem olhar ao perigo, entravam e saíam da Escola Naval, carregando livros, móveis e outros objectos". Os Escoteiros de Portugal receberam depois agradecimentos formais do Ministério da Marinha e das autoridades navais.

 

Em 1915 Hermano Neves, dirigente da AEP, traduz o livro Scouting for Boys (Escotismo para Rapazes) de Baden-Powell, editado com o título" Manual do Escoteiro". Em Junho de 1916, o Presidente da República, Dr. Bernardino Machado, aceita a presidência honorária da AEP, passando a haver um reconhecimento formal do Governo em relação à associação escotista portuguesa. Em 10 de Maio de 1917, o decreto 3120 - B consigna que" ... esta associação é considerada benemérita e de beneficência para os efeitos de contribuições, impostos e franquia postal".

 

Em 1919, por proposta da AEP, o Governo de Portugal atribuiu a Comenda da Ordem Militar de Cristo a Lord Baden-Powell, Fundador do Escotismo.

 

Em 1920, realiza-se em Olympia, Londres, o primeiro acampamento mundial (Jamboree) e os Escoteiros de Portugal marcam também presença com 11 elementos, tendo o Ministério dos Negócios Estrangeiros atribuído passaporte diplomático a estes representantes da AEP.

 

Em 1922 a AEP participa como única representante do Escotismo Português a fundação da World Organization of the Scout Movement - WOSM - (Organização Mundial do Movimento Escotista), a organização internacional promovida por Baden-Powell que desde então congrega todas as associações escotistas reconhecidas a nível mundial e define directrizes e orientação sobre o escotismo.

 

Em 1923 surge em Braga o Corpo de Scouts Católicos Portugueses, uma organização escotista, criada pela Igreja Católica, que contrariamente à orientação inter¬-confessional da AEP, adopta uma orientação uni confessional. Esta organização viria depois a dar origem ao Corpo Nacional de Escutas, associação que ainda hoje se destinada exclusivamente a jovens que professam a religião Católica.

 

Em 1924, realiza-se o segundo acampamento mundial, desta vez na Dinamarca, e a segunda Conferência Internacional do Escotismo. Mais uma vez Portugal está representado por elementos da AEP. Em 1925, realiza-se na Câmara Municipal de Lisboa, a primeira Conferência Nacional do Escotismo, organizada pela AEP.

 

Em 1927, com início em 13 de Agosto, realiza-se, em Queluz, o primeiro acampamento nacional que regista a presença de Grupos de Lisboa, Porto, Coimbra, Figueira da Foz, Algarve, Oliveira de Azeméis, Seixal, Torres Vedras e Torres Novas.

 

Em 1929, atraca pelas 18 horas do dia 4 de Março, no cais da Rocha do Conde de Óbidos, o paquete "Duchess of Richmond", no mastro real do navio vem hasteada a flâmula do Escoteiro-Chefe Mundial. Iniciava-se assim a primeira de duas visitas de Lorde Baden-Powell a Portugal. Para o receber sobem a bordo representantes do governo de Portugal, o coronel Godfrey T. Pope, sobrinho de Baden-Powell e colaborador da AEP, o Dr. Tovar de Lemos, Comissário Nacional da AEP, Albano da Silva, secretário-geral da AEP, Roberto Moreton, Chefe do 10 Grupo da AEP, Sigvald Wiborg, Comissário Internacional, Dr. Weiss de Oliveira do CNS e outros dirigentes escotistas. No dia seguinte, acompanhado por dirigentes da AEP, Baden-Powell é recebido em Cascais pelo General Carmona, Presidente da República. Na tarde do dia 5 de Março de 1929, Baden-Powell percorreu as ruas da baixa de Lisboa, desde a Praça do Comércio até à Sociedade de Geografia, sendo aclamado pela multidão e escoltado pelos escoteiros.
Ainda nesse ano de 1929, realizou-se, em Inglaterra, o terceiro Jamboree Mundial, tendo estado presentes 25 escoteiros da AEP.

 

Em Agosto de 1933, realiza-se, em Carcavelos, o segundo acampamento nacional da AEP, tendo estado presentes escoteiros de todo o país, incluindo representações dos arquipélagos da Madeira e dos Açores. Pelos mesmos dias decorria, na Hungria, o quarto Jamboree Mundial e a AEP, apesar de estar a organizar um acampamento nacional, tinha também uma representação na Hungria, constituída por escoteiros madeirenses.

 

Em 1934, a 12 de Abril, Baden-Powell inicia a sua segunda visita a Portugal, vindo acompanhado por cerca de 700 dirigentes escotistas britânicos. Desta vez, ao chegar a Lisboa, Baden-Powell encontrava-se adoentado não tendo podido desembarcar. Em face disso, os escoteiros portugueses organizaram um desfile e foram visitá-lo ao cais da Rocha do Conde de Óbidos. O Rádio Clube Português montou um sistema de amplificação sonora e transmitiu para todo o país o discurso que Baden-Powell proferiu aos escoteiros presentes no local.
No mesmo ano de 1934, em 2 de Junho, a AEP é agraciada pelo governo de Portugal com a Ordem de Benemerência. Em Setembro realiza-se, no Palácio de Cristal, no Porto, o terceiro acampamento nacional.

Como já foi referido anteriormente, em 1914 foi fundado o Grupo 10, em Lourenço Marques, Moçambique. Em 1924 foi fundado o primeiro Grupo da AEP em Luanda, Angola. Em 1925 há registos de um Grupo da AEP em Goa, índia, há ainda registos de Grupos da AEP em Cabo Verde. Muitos outros se lhes seguiram noutras cidades do então Ultramar, acompanhando o crescimento que a associação também registava tanto no Continente como na Madeira e nos Açores.

 

Em 19 de Maio de 1936 é fundada a Mocidade Portuguesa e a AEP passa a ser perseguida. Os movimentos nacionalistas estavam no seu apogeu e o Escotismo tinha, desde a sua fundação, um carácter universalista e pacífico que não se enquadrava no espírito que o governo de então pretendia consolidar. Em 1939 pelo decreto 29453, de 17 de Fevereiro, são extintos todos os Grupos de Escoteiros do Ultramar, o seu material e sedes confiscado e entregue à Mocidade Portuguesa. Um decreto idêntico estava redigido e pronto para ser promulgado tendo em vista a extinção também dos Grupos do Continente, Madeira e Açores, o qual nunca chegou a ser publicado. O decreto 31908 de 9 de Março de 1942 veio ainda criar mais dificuldades à AEP a qual passou a contar com a hostilidade assumida por parte do regime, tendo sobrevivido até ao 25 de Abril de 1974 com grandes dificuldades.

Os Escoteiros de Portugal chegaram pois a 1974 com poucos elementos e ainda menos dirigentes com capacidade para procederem à renovação e dinamização da mais antiga associação juvenil portuguesa. É a partir da década de 80 que se inicia um processo de renovação de metodologia, formação de dirigentes e abertura de novos Grupos.

 

A partir de 2003 a AEP soube renovar-se e fortalecer-se, tirando partido da motivação de uma geração de dirigentes empenhados e dinâmicos que têm granjeado a confiança dos responsáveis do Movimento Escotista, tanto em Portugal como no estrangeiro.

 

Em 2007, ano do Centenário do Escotismo, a AEP inicia a aplicação do seu novo Programa Educativo, lança o projecto Escotismo para Todos e consolida a renovação do esquema de formação de adultos voluntários.

 

Em 2008 a AEP comemora os 95 anos da sua existência e reforça o seu programa educativo nas áreas do diálogo intercultural, promovendo activamente um Escotismo para Todos.

 

A Associação dos Escoteiros de Portugal:
é Membro fundador da Organização Mundial do Movimento Escotista (1922)
é Reconhecida como Benemérita (1917)
Recebeu a Cruz Vermelha de Mérito (1924)
Recebeu a Ordem de Benemerência (1931)
Recebeu a Medalha do Instituto de Socorros a Náufragos (1974)
é Reconhecida de Utilidade Pública (1980)