História de Kim PDF Versão para impressão Enviar por E-mail

 

texto adaptado de Escotismo para Rapazes, AEP, 1ª edição, ISBN 978-989-8235-04-6

 

Um bom exemplo daquilo que um Escoteiro pode fazer encontra-se descrito no livro intitulado Kim de autoria de Rudyard Kipling. Kim, ou melhor, Kimball O'Hara era filho de um sargento de um regimento irlandês na índia. Os seus pais morreram quando ele ainda era criança e foi deixado aos cuidados de uma tia.

 

Os seus companheiros de brincadeiras eram todos rapazes nativos, pelo que aprendeu a falar a língua deles e a conhecer os seus costumes. Tornou-se grande amigo de um sacerdote itinerante e viajou com ele por todo o norte da Índia. Um dia encontrou por acaso o antigo regimento do pai enquanto caminhava, mas, ao visitar o acampamento, foi preso sob suspeita de ser um ladrão. Uma vez que tinha a certidão de nascimento e outros documentos consigo, o regimento, ao ver que outrora ele fora um deles, tomou conta dele e começou a educá-lo. Mas, sempre que podia tirar umas férias, Kim vestia-se com roupas indianas e andava no meio do povo como se fosse um deles.

 

Passado algum tempo, ficou a conhecer um tal Mr. Lurgan, um negociante de jóias antigas e outras curiosidades, que, devido ao conhecimento que tinha do povo, também era membro do Departamento de Informações do Governo. Este homem, verificando que Kim tinha um conhecimento especial dos hábitos e costumes nativos, constatou que ele poderia tornar-se num agente de grande utilidade ao serviço do Departamento de Informações do Governo. Por conseguinte deu lições a Kim sobre como reparar em pormenores e como recordá-los, um ponto importante na formação de qualquer Escoteiro.

 

A formação de Kim

 

Lurgan começou por mostrar a Kim um tabuleiro cheio de pedras preciosas de todos os tipos. Deixou-o olhar para o tabuleiro durante um minuto, depois cobriu-o com um pano e pediu a Kim para dizer quantas pedras havia no tabuleiro e de que tipos eram. Ao princípio Kim só se conseguia lembrar de algumas e não as conseguia descrever com precisão, mas com algum treino não tardou a ser capaz de se recordar de todas bastante bem. E isto também aconteceu com muitos outros tipos de objectos que lhe foram mostrados seguindo o mesmo método.

 

Por fim, após muita formação, Kim tornou-se membro dos Serviços Secretos e foi-lhe atribuído um sinal secreto - nomeadamente, um medalhão ou distintivo para usar ao pescoço e uma determinada frase, que, se fosse dita de uma forma especial, significava que ele fazia parte dos Serviços Secretos.

 

Kim nos serviços secretos

 

Certa vez, quando viajava de comboio, Kim conheceu um Indiano que estava cheio de feridas na cabeça e nos braços. Este último explicou aos outros passageiros que caíra de uma carreta quando se dirigia para a estação. Mas Kim, como um bom Escoteiro, reparou que as feridas eram aguçadas, não eram os comuns arranhões com que se fica quando se cai de uma carreta, e por isso não acreditou no homem.

 

Quando o homem estava a tentar colocar uma faixa à volta da cabeça, Kim reparou que ele usava um medalhão igual ao seu, por isso Kim mostrou-lhe o dele. De imediato, o homem incluiu na conversa algumas das palavras secretas e Kim respondeu-lhe com as palavras adequadas. Depois o estranho foi para um canto com Kim e explicou-lhe que estava a fazer um trabalho para os Serviços Secretos, que fora descoberto e perseguido por alguns inimigos que quase o haviam matado. Eles provavelmente sabiam que ele estava no comboio e iriam certamente enviar um telegrama aos seus amigos para os avisar que ele estaria a chegar. Ele queria fazer chegar uma mensagem a um determinado agente da polícia sem ser apanhado pelo inimigo, mas não sabia como fazê-lo se eles já tivessem sido avisados da sua chegada. Kim arranjou uma solução.

 

Na Índia, há um certo número de pedintes "santos" que viajam por todo o país. Eles são considerados muito santos e as pessoas ajudam-nos sempre dando-lhes comida e dinheiro. Eles não usam praticamente roupa nenhuma, cobrem os corpos com cinzas e pintam certas marcas no rosto. Assim, Kim pôs mãos à obra para disfarçar o homem de pedinte. Fez uma mistura de farinha e cinzas que tirou de um cachimbo, despiu o amigo e cobriu-lhe o corpo com a mistura.

 

Também lhe cobriu as feridas para que não se vissem. Por fim, com a ajuda de uma pequena caixa de tintas que tinha consigo, pintou as marcas adequadas na testa do homem e despenteou-lhe o cabelo de modo a que parecesse desgrenhado e desalinhado como o de um pedinte. Também o cobriu com poeira para que nem mesmo a mãe do homem o reconhecesse.

 

Passado pouco tempo, chegaram a uma grande estação. Na plataforma da estação, encontraram o agente da polícia a quem o relatório tinha de ser entregue. O pedinte a fingir deu um empurrão ao polícia e este repreendeu-o em inglês. O pedinte respondeu com algumas frases irritadas na língua nativa onde introduziu as palavras secretas. O polícia percebeu imediatamente a partir das palavras secretas que o pedinte era um agente. Fingiu prendê-lo e levou-o até à esquadra onde pôde conversar calmamente com ele e receber o relatório.

 

Mais tarde, Kim conheceu um outro agente do Departamento - um licenciado de uma universidade indiana – e conseguiu ser-lhe de grande utilidade na captura de dois oficiais que eram espiões.